6. GERAL 7.11.12

1. GENTE
2. TECNOLOGIA  27 QUATRILHES DE CLCULOS POR SEGUNDO
3. NEGCIOS  CIFRA ESTELAR
4. COMPORTAMENTO  TODO O PODER AOS CARECAS
5. VIDA DIGITAL  FADIGA VIRTUAL 2.0
6. AMBIENTE - O DEGELO VISTO DE PERTO
7. MEDICINA  NA JUGULAR
8. CIDADES  A ESMOLA DIMINUIU
9. DEMOGRAFIA  DE VOLTA PARA CASA
10. BELEZA  OS ARCOS DO TRIUNFO
11. ESPORTE  O PAS DA LUTA GRECO-ROMANA
12. ESPECIAL  O MUNDO  NOSSO

1. GENTE
JULIANA TAVARES. Com Dolores Orosco, Helena Borges, Mariana Amaro e Marlia Leoni

ATO DE INCENTIVO  CULTURA
S mesmo mentes muito maldosas achariam que JULIANE ALMEIDA usa o corpo para aparecer. Deram-se mal. Essa foto  uma despedida. Escrevo peas de teatro e curso direito. Tenho mais a oferecer, avisa Juliane, que acumula uma passagem de seis anos pelo grupo  o Tchan!. Em meio  exuberncia cultural, Juliane tambm belisca a carreira de atriz. Faz uma ponta em Salve Jorge como uma das mulheres traficadas para a Espanha. O redirecionamento na carreira foi incentivado por Angela Bismarchi, a recordista em cirurgias plsticas que vem a ser madrasta de seu noivo. Falei para ela trocar os silicones por outros mais altes, feito dois faris, diz ngela.

O PERFEITO DE PELOTAS
A cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, est bombando. Na economia, esto previstos 50.000 novos empregos s para a indstria naval, um m regional. Na poltica, o novo prefeito, EDUARDO LEITE (PSDB), chegou para aumentar o quociente de beleza de uma atividade conhecida por outros atributos. Perfeito, seu novo apelido, tem apenas 27 anos e um baita flego. Na campanha, parei de malhar e perdi 1,5 quilo de massa muscular. Mas vou voltar aos treinos, diz. A foto de cuia e bomba foi tirada h um ano por uma amiga, na madrugada, e jogada no Facebook pelo Perfeito. s pessoas interessadas: ele sabe tocar sax e pandeiro, em casa  chamado de Dudu e est solteiro.

UM MONSTRO NA PISCINA
No bastasse a glria das dezoito medalhas de ouro  s cinco a menos do que o Brasil em toda a sua trajetria olmpica , o nadador americano MICHAEL PHELPS ainda foi recentemente eleito por uma revista especializada como o fsico masculino mais perfeito de todos os tempos. Mas e o olharzinho eternamente superior? Se eu tivesse ganho todas aquelas medalhas, seria muito metido. Ele foi muito legal, elogiou Erasmo Carlos Silva Filho, 10 anos, o menorzinho na foto da turma do Alemo para quem o monstro sagrado e aposentado fez uma operao simpatia. O p dele  gigante, parece p de pato natural. E podia ser mais moreninho. Mas as meninas acharam lindo e saram apaixonadas.

EM CASA, NO PROJAC
H cinco anos, quando ainda trabalhava como auxiliar administrativa em uma escola de Contagem, em Minas Gerais, ERIKA JANUZA viajou ao Rio com dois objetivos: conhecer um baile funk e o Projac. Adorei o baile, mas sa chorando do Projac porque a segurana no me deixou tirar nem uma foto, conta.  Hoje, ela vive na nova srie Suburbia, como a protagonista Conceio, uma histria parecida com a sua, a de uma menina que foge do trabalho em fornos de carvo em Minas para conhecer o Po de Acar. Agora, aqui na Globo, vejo artista a toda hora. J no primeiro dia, encontrei a Dbora Falabella. Fiquei to nervosa... S me acalmei quando liguei para minha me e contei quem eu estava vendo.

DE MOMO AO MEME
Rainhas de escola de samba existem vrias, mas s NANA GOUVA, sada da passarela do samba em 2010, pode dizer que provocou um furaco  altura da tempestade Sandy. Meu living room, no 43 andar,  todo envidraado. Acompanhei pela janela, diz Nana, que mora no West Village, em Nova York, onde faz cursos de interpretao e de reduo de sotaque. Com a ajuda do namorado, Nana posou junto a rvores derrubadas perto de sua casa. As imagens viraram um tipo de meme na internet, aquele em que pessoas em poses estranhas so inseridas em cenas clebres. No entendi o motivo. Eu no estou sensualizando. Ao contrrio, estou sria nas fotos. Ela recebeu ligaes de jornalistas da Austrlia  Itlia. Minha sorte que sou trilngue e pude me explicar a todos.


2. TECNOLOGIA  27 QUATRILHES DE CLCULOS POR SEGUNDO
O segredo da velocidade e do tamanho compacto do novo supercomputador americano, o mais rpido do mundo,  o uso inovador de uma tecnologia de videogames.
FILIPE VILICIC

     Tamanho deixou de ser documento entre os supercomputadores. O mais rpido do mundo, o Titan, que entrou em operao na semana passada,  tambm notvel por ser compacto. Sua capacidade de atingir 27 petaflops (ou seja, ele pode realizar 27 quatrilhes de clculos por segundo)  quase trs vezes a de K, o supercomputador japons que agora cai para a terceira posio no ranking dos mais velozes. Para expandirem a velocidade de processamento, os supercomputadores tradicionalmente seguem uma frmula simples: multiplicam a quantidade de processadores, as CPUs. Isso exige mais e mais espao. Fabricado pela Fujitsu na cidade de Kobe, K ocupa 1380 metros quadrados, o equivalente a cinco quadras de tnis. O Titan, construdo pelo governo americano no Laboratrio Nacional de Oak Ridge, no estado do Tennessee, s precisou de 400 metros quadrados, menos de um tero do espao ocupado por K, para chegar a velocidade muito superior. O equipamento est na mesma sala onde antes havia um supercomputador cuja potncia no ultrapassava um dcimo da sua.
     O segredo que permitiu maior velocidade em menor tamanho est no uso de uma tecnologia que turbina os aparelhos de videogame. Essas mquinas e tambm os computadores configurados para rodar games de ltima gerao so equipados com unidades de processamento grfico, as GPUs. So esses dispositivos que elevam a qualidade grfica de um Xbox 360 e tambm do display de alta resoluo do MacBook Pro. Quando um jogador detona virtualmente uma rvore,  a GPU, com sua enorme capacidade de realizar clculos simultneos, que simula a fsica do mundo real, tornando a cena realista. Uma GPU, sozinha, no tem o poder de fazer funcionar um computador. Mas, operando em conjunto com a CPU, turbina a sua capacidade de processamento. O Titan  o primeiro supercomputador de primeiro time, com mais de 5 petaflops, a aplicar esse conceito.
     Na verdade, ele  um upgrade de um modelo anterior, o Jaguar. O que os pesquisadores fizeram foi instalar uma GPU para cada um dos 18.688 chips de CPU existentes no Jaguar. Dessa forma, multiplicaram por dez a fora do computador sem ter de aumentar a quantidade de CPUs. Para atingir a mesma potncia pela maneira antiga de fabricar supercomputadores, seria preciso ocupar cerca de 3000 metros quadrados (sete vezes mais). Se tivessem feito dessa forma, a energia necessria para suprir o complexo seria de 60 megawatts por ano, o suficiente para abastecer 60.000 casas. Com a eficincia melhorada pelas GPUs, o consumo ficou em apenas 9 megawatts.
     Supercomputadores so usados em pesquisas cientficas e militares que envolvem fenmenos atmicos ou em escalas maiores que galxias. So clculos que consideram milhares de variveis e que demorariam meses para ser feitos por computadores convencionais. O Titan precisa de treze horas para criar um modelo de como se comportam nutrons no centro de um reator nuclear. Um supercomputador mais antigo  isto , de dois anos atrs  leva quase o triplo do tempo. So clculos que podem ser utilizados, por exemplo, para aumentar a eficincia de usinas nucleares. O Titan deve ser oficialmente nomeado o mais rpido do mundo em um ranking que sai neste ms. Por enquanto, o lder  o tambm americano Sequoia, com 16 petaflops de processamento (onze a menos que o Titan). O Sequoia chegou ao pice de performance em junho, quando ultrapassou o japons K. Antes, a China liderava. Na prtica, qualquer um dos dez melhores atinge desempenho suficiente para atender a pesquisas cientficas de ponta. O que h  uma competio declarada  e saudvel para a cincia  para ver quem vai mais longe. Disse a VEJA o fsico Jack Wells, diretor do laboratrio do Titan: Ter excelncia em computao impulsiona uma nao, e supercomputadores so essenciais para pesquisas nucleares, aeroespaciais, biolgicas. A luta pelo topo do ranking est mais relacionada  competitividade. O velho mostrar que podemos. 

O PODER DE TITAN
27 petaflops  a sua capacidade de processamento. A mesma que a de 700.000 computadores comuns de ltima gerao combinados.
710 terabytes de armazenagem. Isso equivale ao contedo de 1,4 bilho de livros. Ou seja, 42 vezes o catlogo da Biblioteca do Congresso americano, a maior do mundo.

9 megawatts de energia so consumidos pelo Titan por ano. O nmero corresponde ao consumo anual de 9000 casas.

COM REPORTAGEM DE GUSTAVO SIMON


3. NEGCIOS  CIFRA ESTELAR
A Disney compra a Lucasfilm, o estdio que produziu a srie Guerra nas Estrelas, por 4 bilhes de dlares.

     O jedi Luke Skywalker se rendeu ao imprio. Na tera-feira passada, a Disney anunciou a compra da Lucasfilm, estdio do cineasta e produtor George Lucas, por 4 bilhes de dlares. Metade desse valor ser paga em dinheiro, metade em aes. Para todos os fins, comprou-se uma nica marca  mas  uma marca imensa: Guerra nas Estrelas, criao de Lucas que teve seis filmes no cinema entre 1977 e 2005. A Disney j anunciou que pretende lanar o stimo ttulo da franquia em 2015 e outros dois nos anos seguintes. Mais um lance agressivo do CEO da Disney. Bob Iger, a aquisio da Lucasfilm torna a empresa a lder inconteste no cinema de fantasia e super-heris. Em 2006, nos primeiros meses da gesto de Iger, a Disney adquiriu o estdio de animao Pixar por 7,4 bilhes de dlares. Trs anos mais tarde, a Marvel foi integrada ao imprio do Mickey por 4 bilhes de dlares, negcio que se revelou muito compensador: s a bilheteria de Os Vingadores, neste ano, totalizou 1,5 bilho de dlares no mundo todo.
     A franquia Guerra nas Estrelas tinha uma ligao estreita com a Disney: alguns parques temticos da companhia j contavam com brinquedos baseados no universo criado por Lucas. A prioridade da empresa, antes mesmo da produo dos novos filmes, ser reforar a comercializao dos produtos relacionados  srie, cujo licenciamento rende 215 milhes de dlares por ano. A cifra  considerada tmida, tendo em vista os parmetros da Disney e o potencial de personagens como Luke Skywalker e Darth Vader. Jay Rasulo, executivo da Disney, observou que um dos motivos desse desempenho pouco satisfatrio seria a insero acanhada da marca fora dos Estados Unidos. Menos de 40% dos rendimentos em licenciamento vm do mercado global, num momento em que o cinema de superproduo, para efeito de comparao, em geral recolhe 60% de sua renda fora do territrio americano.
     George Lucas criou a Lucasfilm em 1971. Seis anos depois, lanou Guerra nas Estrelas, marco no cinema de fantasia e, juntamente com Tubaro, de Steven Spielberg, inaugurador da tendncia do filme-evento. No pacote adquirido pela Disney, inclui-se outra criao de Lucas: a Industrial Light & Magic, uma das lderes em efeitos especiais no mundo. A Lucasfilm ser presidida por Kathleen Kennedy, que j fazia parte da direo do estdio e  muito prxima de Spielberg. Lucas vai atuar apenas como consultor. Grande potncia no mercado mundial de entretenimento, a Disney, na gesto de Iger, no conhece crise: vem crescendo a uma mdia de 8% ao ano. Iger costuma dizer que o negcio da companhia  contedo. E Guerra nas Estrelas, no h dvida,  um contedo dos mais valiosos. 


4. COMPORTAMENTO  TODO O PODER AOS CARECAS
O ancestral preconceito assegura: s os cabeludos tem sucesso profissional, enquanto para os calvos resta um destino menor. A cincia comea a rever essa condio.
SIMONE COSTA

     Em um dos mais divertidos episdios de Os Simpsons  Simpson e Dalila, de 1990, cultuado pelos amantes do desenho , Homer, o patriarca de uma arquetpica famlia de classe mdia americana, cansado de sua vidinha insossa de subrbio, do chefe cruel, da esposa mais ou menos e do filho, o endiabrado Bart, acha um meio de dar a volta por cima. Certo de que o entrave para melhorar o seu desempenho, pelo menos no mbito profissional,  a lustrosa careca amarela, ele adquire um produto (o sensacional Dimoxinil) para fazer brotar uma vasta cabeleira em seu, como dizem por a, terreno baldio. Um dia depois de experimentar a frmula, com longas madeixas castanhas, Homer  promovido a um cargo de alto escalo. Como o personagem bblico Sanso, a sua fora  ou, no caso, a sua promoo  termina por escoar pelo ralo quando o blsamo acaba e o cabelo volta a rarear.
     A acidez da mensagem embutida no seriado (dos carecas eles, os chefes, gostam menos) acaba de ganhar uma resposta cientfica: uma pesquisa da Universidade da Pensilvnia, recm-divulgada, solapa a percepo ancestral de que o mundo reserva aos cabeludos poder, dinheiro e sucesso, enquanto os calvos esto fadados a um destino menor. O estudo foi conduzido pelo professor de administrao de empresas Albert Mannes (careca, por bvio). Ele fez trs experimentos em que 1015 pessoas expuseram suas impresses sobre a presena de cabelo ou a falta dele. No primeiro, os entrevistados avaliariam caractersticas como dominncia, atratividade e afabilidade em um grupo de fotos de homens carecas e em outro, de cabeludos. No segundo exame, as pessoas foram expostas a fotos de um homem com fartura capilar e  imagem dele sem cabelo, removido digitalmente. No terceiro, os entrevistados ouviram descries de um profissional fictcio ora com cabelo, ora sem ele. O resultado dos trs experimentos foi o mesmo: os homens sem cabelo, de preferncia os do estilo mquina zero, foram percebidos como mais poderosos, mais competentes e mais corteses. Raspar toda a cabea, em vez de deixar visvel aquela aparente queda de cabelo, pode fazer o homem se sentir mais confiante, reduzindo os efeitos negativos da calvcie, disse Mannes a VEJA.
     O estudo de Mannes  um daqueles pratos que se comem frio, como reza o ditado popular, para quase 1 bilho de homens calvos que habitam o planeta, entre eles os muitssimos bem-sucedidos Jeff Bezos, criador do gigante virtual Amazon, e Dana White, o sujeito que transformou o violentssimo Ultimate Fighting Championship, o UFC, em um dos torneios mais rentveis do mundo. A averso e o preconceito contra os carecas, assim como a angstia de quem assiste ao declnio de seu imprio capilar com o passar dos anos, existem desde que o mundo  mundo. O romano Jlio Csar, inconformado com a sensao de vazio que pairava sobre si, deixava crescer os fios que lhe restavam nas laterais e os acomodava no sto despovoado. Nesses tempos, ser escravo era uma coisa bem ruim, mas pior era ser escravo e careca. Aos calvos cabiam as tarefas de lavar banheiros, estbulos e de limpar esgotos. Prisioneiros, adlteras e traidores tiveram a cabea raspada como forma de humilhao, escreveu o jornalista americano Gersh Kunrzman no livro Cabelo!  A Hisrrica Luta da Humanidade para Acabar com a Calvcie.
     A total falta de entendimento cientfico sobre a calvcie, antessala de ideias preconcebidas, chegou ao fim na dcada de 60, com a descoberta de que os homens calvos produzem em demasia uma enzima chamada 5 alfa-reductase. Ela age sobre a testosterona, transformando-a em DHT, o hormnio da calvcie.  o DHT que vai minando o crescimento dos cabelos, dia aps dia, at que os fios nunca mais apaream. Com a popularizao das pesquisas que associavam o aumento dos nveis de testosterona  queda dos fios, nos anos 80, a calvcie comeou a ser vista como uma possvel qualidade masculina, e no demrito. Na dcada seguinte, atletas e atores carecas assumiram o visual, e a calvcie, enfim, estabeleceu-se como um smbolo de virilidade, de poder e de beleza. Para os homens que sofrem com os efeitos colaterais da finasterida, o remdio que impede a queda dos fios, mas causa impotncia, ou que agendaram o implante, este  um bom momento para repensar a deciso. Carecas podem ser poderosos  embora apenas trs dos 26 prefeitos eleitos nas capitais brasileiras sejam sobejamente calvos.

SER OU NO SER?
Uma pesquisa da Universidade da Pensilvnia com 1015 pessoas revelou que a maioria delas hoje considera os carecas lderes potenciais. A percepo da calvcie ao longo das dcadas nem sempre foi assim.

DCADA DE 50
No tempo em que os carecas eram vistos como figuras frgeis,  margem do cotidiano produtivo, o ator russo Yul Brynner furou o bloqueio de gals cabeludos de Hollywood e brilhou como o rei do Sio em O Rei e Eu, de 1956. Faria sucesso tambm como o fara Ramss de Os Dez Mandamentos.

DCADA DE 70
Telly Savalas, o detetive Theo Kojak da srie televisiva,  um dos carecas mais conhecidos da histria. Fez sucesso num tempo em que os calvos eram tidos como medrosos e pouco viris  a figura engraada, muito esperta, afeita  malandragem de rua de Nova York, mudou essa impresso.

DCADA DE 80
Foi o momento da virada para os carecas. Aps a descoberta da relao entre o aumento dos nveis de testosterona e a queda de cabelo, as novidades cientficas se popularizaram com a divulgao de diversos estudos sobre o tema. Os carecas deixaram de ser vistos como eternos perdedores, fadados a ocupar um cargo mediano no mundo corporativo, sem grandes emoes na vida afetiva  esteretipo eternizado pelo personagem Homer Simpson. A calvcie passou, ento, a ser sinnimo de virilidade, astcia e inteligncia.

DCADA DE 90
Teve incio o apogeu dos carecas. Eles passaram a ser vistos como pessoas fortes, atlticas, capazes de atos heroicos, como os personagens interpretados no cinema por Bruce Willis na srie Duro de Matar. Quem tinha cabelo raspava, como o jogador Ronaldo. No demorou,  claro, para que a calvcie virasse moda, especialmente entre os que no podiam ostentar o contrrio dela.

HOJE
A calvcie comeou a ser associada a experincia e competncia, como se a queda dos fios fosse um termmetro intelectual. Os carecas passaram a ser percebidos como lderes natos e homens de negcios bem-sucedidos.  o caso de Jeff Bezos,
o executivo-chefe da Amazon, e do presidente do UFC, o campeonato de artes marciais mistas, Dana White.


5. VIDA DIGITAL  FADIGA VIRTUAL 2.0
O ritmo frentico de atualizaes de softwares e lanamentos de novas verses de smartphones, tablets e computadores acaba com a pacincia do consumidor.
FILIPE VILICIC

     O americano Gordon Moore, fundador da Intel, fez uma previso em 1965 que se tornou o mais conhecido parmetro da computao. Moore estimou que a capacidade de processamento dobraria, sem aumento de custo, a cada dois anos.  a Lei de Moore. Aplicado esse princpio no universo do consumo, significa que computadores e tablets melhoram expressivamente seu desempenho nesse intervalo de tempo. Ou seja, dois anos  um bom prazo para usufruir de um aparelho antes de pensar em troc-lo por um novo. Ocorre que, nos ltimos tempos, os fabricantes de softwares e hardwares passaram a desprezar a Lei de Moore. Atualizaes de programas e novas verses de produtos chovem em ritmo frentico em lojas e na tela de computadores. Raras vezes as diferenas de uma verso para outra justificam tanta pressa. A quarta gerao do iPad foi lanada h duas semanas, apenas sete meses depois da terceira. O espao de tempo decorrido entre o surgimento do novo sistema operacional de Macs, o Mountain Lion, e o de seu antecessor, o Lion, foi de apenas um ano. Entre o smartphone Lumia 900, da Nokia, e o Lumia 920, cujas vendas comeam nesta semana na Europa, passaram-se sete meses. Quem comprou um Lumia 900 tem nas mos um celular praticamente novo. A verso 920 no traz nenhum avano tecnolgico que torne aceitvel gastar centenas de dlares na troca. Apresentado na semana passada pelo Google, o celular Nexus 4 tambm pouco evoluiu em relao ao Galaxy Nexus, lanado h um ano. Quem troca uma gerao de um produto por outra muitas vezes se sente incomodado com a falta de novidades  e com boas razes. As mudanas so ligeiras na maioria das vezes e no justificam o custo de cada novo hardware ou software.
     Um levantamento da Underwriters Laboratories, organizao americana que testa e certifica produtos, concluiu que consumidores esto fartos das constantes atualizaes. A pesquisa ouviu 1200 americanos, chineses, alemes e indianos. Metade dos entrevistados acredita que os fabricantes apresentam novos produtos mais rapidamente do que as pessoas possam precisar deles. Ou seja, h sinais de fadiga no consumo de tecnologia. Isso no quer dizer que os outros 50% se empolguem a cada lanamento  a maior parte deles  provavelmente indiferente. Apesar das evidncias do aumento da resistncia dos consumidores ao ritmo de novidades, empresas insistem na ttica comercial de oferecer novos smartphones, tablets e programas de computador. O mesmo levantamento ouviu 1200 executivos em empresas de tecnologia e descobriu que oito em cada dez acreditam que, para se manter no negcio,  necessrio inovar constantemente. Tambm se notou que as companhias de tecnologia consideram o tpico inovao o mais relevante para se destacar diante da concorrncia. Em terceiro lugar ficou chegar rpido ao mercado. Em conjunto, os dados so claros: desenvolvedores acham que precisam atualizar softwares e hardwares cada vez mais depressa para chamar ateno. Na prtica, arriscam causar averso.
     H duas explicaes para a m vontade detectada pelo estudo. Uma  bem conhecida: as atualizaes so insuportveis. Pouca coisa irrita tanto como os avisos constantes de que h atualizaes disponveis. Dois campees nessa modalidade, o Adobe Flash Player e o Java, fazem isso com o objetivo de se precaver contra vrus. Para piorar, baixar as novas verses desses softwares costuma impedir que o computador execute outras tarefas enquanto dura o download. A vem outra dor de cabea: a necessidade de reiniciar o computador e esperar que o sistema operacional se adapte s alteraes. O ritmo varia, mas o Java e o Adobe chegam a pedir trs atualizaes numa nica semana. Outra razo para a irritao dos consumidores  a falta de novidades de peso entre uma verso e outra. Ningum gosta de pagar por mudanas to ralas.
     O iPhone 5, apresentado em setembro,  um caso exemplar. A ausncia de novidades no smartphone foi motivo de chacota na internet. Em uma delas, um chefo da Microsoft pergunta a seu par da Apple: Qual  sua estratgia para vender mais?. A resposta: Vou aumentar um pouquinho o tamanho do meu smartphone antigo. No ltimo quadro da charge virtual, ambos do risada. A nica mudana significativa do iPhone 5 em relao ao antecessor, o 4S, foi a tela, que passou de 3,5 para 4 polegadas. Similar falta de inovaes marca o iPad Mini, cujas vendas comearam na semana passada. Ele seguiu o caminho contrrio ao do iPhone 5. Em vez de ser maior que o antecessor,  um pouco menor. A estratgia de pouco evoluir se repete em seu irmo mais velho, o iPad maior. A terceira verso do tablete tinha pouca novidade em comparao  segunda. A diferena da quarta para a terceira foi ainda menor. O resultado  que nos ltimos trs meses a Apple vendeu quase 4 milhes de iPads menos do que o previsto.

MUDANAS COSMTICAS

iPad (3 gerao)  iPad (4 gerao)
Tempo decorrido entre os lanamentos: 7 meses
Por que o novo no faz diferena: O ligeiro aumento na capacidade de processamento no justifica trocar um tablet pelo outro.

Lumia 900  Lumia 920
Tempo decorrido entre os lanamentos: 7 meses
Por que o novo no faz diferena: Pafa-se mais por uma pequena melhoria na cmera fotogrfica e um acrscimo de 0,2 polegada na tela

Kindle Fire  Kindle Fire (2 gerao)
Tempo decorrido entre os lanamentos: 1 ano
Por que o novo no faz diferena: O fato de o processador ser 40% mais rpido 
imperceptvel durante o uso.

Lion  Mountain Lion
Tempo decorrido entre os lanamentos: 1 ano
Por que o novo no faz diferena: O perodo  muito curto para o sistema operacional do Mac ser considerado defasado. No vale a pena pagar pela pequena atualizao.


6. AMBIENTE - O DEGELO VISTO DE PERTO
Um fotgrafo viaja cinco anos pelas geleiras ao redor do mundo registrando as transformaes que elas sofrem com o aumento das temperaturas mdias globais.
CAROLINA MELO

     Os cientistas j no tm dvida de que as temperaturas mdias esto subindo em toda a Terra. Se a atividade humana est por trs disso  uma questo ainda em aberto, mas as mais claras evidncias do fenmeno esto no derretimento das geleiras. Nos ltimos cinco anos, o fotgrafo americano James Balog acompanhou as consequncias das mudanas climticas nas grandes massas de gelo. Suas andanas lhe renderam um livro recm-lanado nos Estados Unidos, Ice: Portraits of Vanishing Glaciers (Gelo: Retratos do Sumio dos Glaciares), que rene 200 fotografias, entre elas as que ilustram esta reportagem.
     Icebergs partidos ao meio e lagos recm-formados pela gua derretida das calotas de gelo so exemplos do que Balog viu de perto. Esse derretimento  sazonal. O gelo volta nas estaes frias mas muitas vezes em quantidade menor, e por menos tempo. Tambm acontece de os cientistas se enganarem em seus clculos e acabarem fazendo previses infundadas e alarmistas. O caso mais famoso ocorreu em 2007, quando o Painel Intergovernamental sobre Mudanas Climticas (IPCC), da ONU, anunciou que os glaciares do Himalaia poderiam desaparecer at 2035. No incio deste ano, ficou provado que algumas das geleiras do Himalaia esto at ganhando volume. Disse a VEJA o glaciologista Graham Cogley, da Universidade Trent, no Canad:  certo que 98% das geleiras do mundo esto encolhendo, mas muito poucas, at hoje, desapareceram. Ainda temos um longo caminho antes de perdermos uma parte significativa delas.
     H trs meses, um relatrio da Nasa, feito a partir de imagens de satlite, mostrou que boa parte da superfcie de gelo da Groenlndia foi parcialmente derretida  transformada em uma espcie de lama de neve  em um tempo recorde desde os primeiros registros, feitos trinta anos atrs. Em maio, foi registrada em alguns pontos na ilha a temperatura de 24,8 graus  2,4 a mais do que o recorde anterior para esse ms, de 1991. O gelogo Thomas Mote, da Universidade da Gergia, nos Estados Unidos, declarou a VEJA: Neste ano tivemos um padro raro de temperatura no vero da Groenlndia. A temperatura de toda a regio do rtico esta mais alta. Esses dois fatores resultaram nas imagens que vimos. Um outro relatrio, elaborado pela National Snow and Ice Data Center, mostra que o gelo do rtico, durante o vero do Hemisfrio Norte, teve a maior taxa de derretimento da histria, superando o recorde anterior, de 2007. Nem sempre menos gelo significa ms notcias. A alta da temperatura na Groenlndia permitiu a volta da criao de gado leiteiro e o cultivo de vrios tipos de vegetais, como batata e brcolis. Alm disso, o derretimento do gelo no rtico vai permitir a explorao de reservas de petrleo e abrir novas rotas de navegao. O que se v nas fotos de James Balog  um mundo em transformao. 


7. MEDICINA  NA JUGULAR
Uma linha de pesquisa sobre esclerose mltipla associa a doena ao estreitamento de veias e prope a colocao de bales ou prteses metlicas para seu tratamento.
ADRIANA DIAS LOPES

     Com 2 milhes de doentes no mundo, 30.000 deles no Brasil, a esclerose mltipla est entre os mais devastadores transtornos neurolgicos degenerativos. No incio, suas vtimas apresentam viso turva, tontura e leve dormncia nos braos. Depois, passam a sofrer de tremores pelo corpo e tm dificuldade para falar. Manifestam falta de coordenao motora e equilbrio, fraqueza muscular, lapsos de memria e concentrao. Sem tratamento, em vinte anos o paciente no consegue mais se mexer. Descrita pela primeira vez em meados do sculo XIX, a esclerose mltipla continua a desafiar a medicina. De causa desconhecida, a doena no tem cura. Os medicamentos existentes, no mximo, minimizam os sintomas ou postergam o seu agravamento. Uma das frentes de pesquisa mais recentes  tambm a mais controversa: um tratamento conhecido como liberao, que consiste no alargamento das duas principais veias de drenagem do crebro, mediante a colocao de bales ou prteses metlicas, os stents.
     Desenvolvida pelo cirurgio vascular italiano Paolo Zamboni, da Universidade de Ferrara, a terapia tem como base a premissa de que a esclerose mltipla est fortemente associada a um defeito vascular.  uma teoria muito diferente daquela com a qual os mdicos trabalham h quase dois sculos. A doena  autoimune. As clulas de defesa do organismo atacam e destroem a capa de gordura (bainha de mielina) que protege as ramificaes dos neurnios. Sem essa cobertura, os impulsos nervosos perdem a fora ou so interrompidos, o que leva aos sintomas. Na concepo do mdico italiano, a agresso  bainha de mielina estaria de alguma forma relacionada a um estreitamento das principais veias de escoamento de sangue, as jugulares internas, o que levaria a uma concentrao txica de ferro no crebro (veja o quadro na pg. ao lado). A primeira paciente de Zamboni foi sua mulher, Elena, em 2006. O diagnstico de esclerose mltipla fora dado onze anos antes. Os remdios mantiveram o quadro de Elena estvel at 2000, quando ela sofreu uma recada violenta. A cirurgia para distenso das veias jugulares durou menos de uma hora e, segundo o mdico, sua mulher hoje passa bem, sem registro de piora do quadro clnico. O prprio Zamboni sofre de uma doena do sistema nervoso perifrico, a neuropatia motora multifocal.
     Mais de 20.000 pessoas, desde 2006, foram submetidas ao mtodo, na ndia, Bulgria, Polnia, Jordnia e Costa Rica. Algumas apresentaram melhoras. Os pacientes podem estar livres dos sintomas pela prpria caracterstica da doena, que pode se agravar num momento e melhorar em outro, para piorar mais tarde, diz Arthur Cukiert, presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Funcional. O grande problema  submeter-se a um procedimento invasivo, que possui riscos e sobre o qual no h nenhuma evidncia mdica adequada de que funcione. Nos operados pela tcnica de Zamboni, houve tambm quem no registrasse melhora alguma, quem apresentasse um novo afunilamento (o que exigiu uma segunda, terceira e at quarta operao) e at quem morresse vtima de hemorragia ou em decorrncia do deslocamento do stent para o corao.
     Ainda que o recurso de Zamboni j esteja sendo estudado em sete centros de pesquisa, entre eles a prestigiosa Universidade Stanford, nos Estados Unidos, h ceticismo da comunidade mdica. Divulgada recentemente, a primeira pesquisa sria sobre a teoria do italiano chegou a resultados inconclusivos. Entre os portadores de esclerose mltipla, 56% apresentavam estreitamento das veias jugulares  mas 23% dos participantes saudveis tambm exibiam alterao venosa semelhante. O problema  que pacientes vtimas de outros distrbios neurolgicos, e no apenas da esclerose mltipla, tambm sofrem afunilamento das jugulares internas.

COMO  O PROCEDIMENTO
 As veias jugulares internas direita e esquerda so as principais responsveis pela drenagem do sangue do crebro. Robustas, elas tm cerca de 1 centmetro de dimetro.
 Estudos do cirurgio italiano Paolo Zamboni sugerem que a esclerose mltipla estaria associada a um estreitamento de tais vasos sanguneos.
 O alargamento das jugulares internas, mediante a colocao de bales ou stents, restabeleceria o fluxo de sangue do crebro.


8. CIDADES  A ESMOLA DIMINUIU
Um plano da prefeitura para remover todos os sem-teto das ruas de Londres no cumpriu o objetivo, mas serviu para convencer muitos ingleses a no dar dinheiro aos pedintes.
DUDA TEIXEIRA

     As primeiras leis para acabar com a mendicncia em Londres so do sculo XIV, quando a Inglaterra estava saindo do feudalismo e um tero da fora de trabalho tinha sido dizimado pela peste negra. Para suprir a falta de mo de obra, o governo decretou que todos com menos de 60 anos e em boas condies fsicas seriam obrigados a trabalhar. S os incapacitados eram autorizados a pedir esmolas. No sculo XVI, uma lei estabeleceu que ser flagrado vrias vezes passando o chapu podia at levar  pena de morte. O problema ainda desafia a imaginao de governos e legisladores. O prefeito de Londres, Boris Johnson, prometeu tirar todos os indigentes das ruas at este ano, mas tambm fracassou. H quase 500 pessoas dormindo ao relento em Londres por dia, um aumento de 8% em relao a 2011. Embora no tenha atingido o objetivo, talvez inalcanvel, o programa de Johnson obteve alguns sucessos. O principal  ter criado uma estrutura para identificar o mais cedo possvel aqueles que dormem pela primeira vez na rua e lev-los a algum dos albergues da capital. Dessa forma, tenta-se evitar que os sem-teto novatos se tornem viciados em alguma droga e, por causa disso, passem a pedir esmolas. Segundo uma pesquisa da ONG Thames Reach, que d apoio aos moradores de rua de Londres, entre 70% e 80% dos mendicantes so dependentes de herona ou crack. Em 2003, a entidade, que atua em conjunto com a prefeitura, iniciou uma campanha pedindo que as pessoas no financiem seu vcio. Os mendigos nos dizem que est mais difcil conseguir dinheiro hoje do que h dez anos, afirma o socilogo ingls Mike Nicholas, que trabalhou nessa campanha. Quem d moedas a eles acha que est fazendo uma boa ao, mas acaba contribuindo para manter o vcio dessas pessoas, muitas das quais morrem de overdose.
     Londres tambm tenta se livrar da mendicncia profissional, um fenmeno comum a muitas capitais europeias. Desde 2004, algumas reas da cidade foram tomadas por grupos de romenos, em geral ciganos. Em Madri, uma pedinte romena chegou a protagonizar uma situao que levou o prncipe herdeiro Felipe de Bourbon a cometer uma gafe muito criticada no pas, h duas semanas. Os espanhis acham que a famlia real est alheia ao empobrecimento da populao, uma consequncia da grave crise econmica e do alto desemprego. E eis que o prncipe saa de uma igreja quando a mendiga esticou a mo, com a palma virada para cima. Acostumado a cumprimentar os sditos a todo instante, o prncipe, distrado, no titubeou: deu-lhe um forte e caloroso aperto de mo, mas nada de esmola.  parte esse episdio jocoso, a atuao dos ciganos pedintes  tratada como caso de polcia. Em Londres, muitos imigrantes romenos pem as crianas para pedir dinheiro e assaltam os pedestres com facas. Vivem principalmente em parques prximos a reas tursticas, em West End. Eles so levados a Londres por mfias especializadas no trfico de pessoas. Por dia, ganham o equivalente a 650 reais. Em julho, alguns desses ciganos foram flagrados em escritrios do banco Western Union transferindo somas nada desprezveis para seus familiares na Romnia. Estima-se que faam remessas de 260 reais por dia para casa. Como a explorao de trabalho infantil  crime, a polcia intensificou a abordagem de romenos. Quando no so pegos em flagrante cometendo alguma infrao grave, eles recebem 200 euros e uma passagem para o seu pas. Na prtica, os pedintes usam a punio como um benefcio, pois vo visitar a famlia na Romnia e depois voltam para Londres. Em Paris, o governo de Nicholas Sarkozy, no ano passado, proibiu a presena dos pedintes romenos em alguns lugares tursticos, como a Avenida Champs-Elyses. A polcia tinha dificuldade para conversar com eles, por isso foi preciso fazer uma parceria com o governo da Romnia. Agora, membros da polcia romena fazem a ronda ao lado dos colegas franceses.
     Em Um Conto de Natal, do escritor ingls Charles Dickens (1812-1870), o avarento personagem Scrooge se nega a fazer uma doao aos pobres e diz que todos os sem-teto deveriam ser mandados para os asilos: Pago impostos para manter as instituies a que me referi. Quem no tiver o que comer que se recolha a elas. Os ingleses podem agir como Scrooge, mas no por avareza, e sim para o bem de todos os londrinos.


9. DEMOGRAFIA  DE VOLTA PARA CASA
Israel comeou a retirada, em avies, dos ltimos descendentes de judeus da Etipia. Aqueles que seguem o cristianismo recebero curso de judasmo e hebraico.
NATHALIA WATKINS

     Desde a sua fundao, em 1948, Israel vive um dilema de identidade. O pas declara-se uma nao judia e democrtica. Questionamentos sobre como o governo deveria lidar com aqueles que no seguem a religio do estado sempre existiram. Em uma democracia, o governo deveria estar protegido dos princpios religiosos. Talvez por isso Israel no perca as raras chances de provar sua capacidade de conciliar essas duas caractersticas contraditrias. A mais recente oportunidade apareceu na segunda-feira 29, quando o pas deu incio ao processo de imigrao dos ltimos 2200 descendentes de judeus que vivem na Etipia, os falashas mura. Apesar de seus ancestrais terem se convertido ao cristianismo, a religio predominante no pas, eles afirmam querer voltar s razes judaicas e viajar para Israel, onde o PIB per capita  oitenta vezes o da Etipia. Alguns esto esperando para fazer a ali (subida, em hebraico), como  chamada a migrao judaica para Israel, h uma dcada. O governo quer transportar todos at maro de 2014 em voos mensais.
     A existncia de judeus na Etipia s comeou a ser investigada em 1845, com a chegada de missionrios cristos  regio. Esses viajantes relataram a existncia de negros judeus que no aceitavam o Novo Testamento. Nos anos 1970, um grupo de rabinos de Israel reconheceu a origem judaica desse povo. Uma das explicaes religiosas  que eles seriam fruto de um romance entre a rainha de Sab e o rei Salomo em Jerusalm, h 2500 anos. Outra diz que eles seriam membros da tribo perdida de D, que migrou para a frica no sculo VI a.C. Como Israel no tinha relaes diplomticas com a Etipia, agentes do Mossad montaram uma operao secreta para levar os falashas  terra prometida. Milhares deles, famintos e depauperados pela seca na Etipia, caminharam at o Sudo, de onde embarcaram para Israel. Em 1984 e 1985, cerca de 8000 judeus fugiram de l em avies disfarados. A operao terminou quando o primeiro-ministro Shimon Peres a revelou  imprensa, levando os pases rabes a pressionar Cartum a no cooperar com o inimigo sionista.
     Outras operaes se seguiram. Em 1990, Israel fechou um acordo com o ditador comunista Mengistu Hafle Mariam, em meio  guerra civil na Etipia.
O hotel onde eu morava foi bombardeado. Meu carro tambm. Se no agssemos rpido, todos morreriam, disse a VEJA Asher Naim, ex-embaixador de Israel na capital etope e responsvel pelo resgate. Em 26 horas, 14.200 pessoas foram levadas em trinta avies. Um deles, um Boeing 747, transportou mais de 1000 pessoas, quase trs vezes sua capacidade. Os assentos foram retirados para aumentar o espao disponvel. Nos anos seguintes, etopes convertidos ao cristianismo que alegavam ter ancestrais judeus pleitearam a cidadania israelense. O direito deles de retornar  f judaica foi defendido por alguns rabinos. O governo consentiu, e o plano foi montado para trazer os ltimos membros dessa comunidade. No  to simples. Aparecero muitos outros etopes alegando parentesco com algum que j veio para c, diz Naim.
     A maioria dos etopes chega sem saber ler nem escrever. Eles so instalados na periferia das cidades e recebem aulas de hebraico e judasmo.
     Aps um ano, ganham uma carteira de identidade definitiva. A partir da, precisam enfrentar o preconceito e a falta de qualificao profissional. Quando vieram os primeiros etopes, todos falavam no cumprimento de uma misso histrica. O entusiasmo acabou, diz Steven Kaplan, especialista em religio da Universidade Hebraica de Jerusalm. Entre os 150.000 etopes do pas, poucos ascenderam socialmente. Urna exceo  a modelo Esti Mamo, levada a Israel aos 9 anos, em 1992. A poltica migratria do pas  orientada pela definio de Israel como estado judeu. S quem tem pelo menos um av judeu ou uma av judia pode ganhar a cidadania. Todos os dias, porm, entre cinquenta e 100 africanos sem ancestralidade judaica cruzam a fronteira do Egito com Israel em busca de trabalho e de uma vida digna. Esse  um problema que nenhum conselho de rabinos conseguir resolver.


10. BELEZA  OS ARCOS DO TRIUNFO
Arrancar sobrancelhas traz lgrimas aos olhos? No  nada perto da dermopigmentao e da cirurgia de implante de fios, recursos estticos para dar uma fora  natureza.

MARUA LEONI
     Um simples arquear de sobrancelhas pode mudar os rumos de uma conversa, uma abordagem sentimental ou um fim de captulo de novela. Simples  apenas uma maneira de dizer. Para treinarem aquela levantada fatal, atrizes e mulheres facialmente expressivas precisam dominar os corrugadores, os orbiculares e o prcero  alm de depilar os fios com pinas, apar-los com tesourinha, tingi-los, redesenh-los com tatuagens ou fazer um implante. A farta cobertura de mulheres admiradas como Juliana Paes, que deixou que as sobrancelhas tomassem a precedncia da esttica facial em Gabriela, inspira as menos dotadas em matria de pilosidade a adotar esse ltimo e radical recurso. Di, mas d o ar controladamente selvagem que est na moda.
     O princpio  o mesmo do implante de cabelos. Durante uma operao que pode levar at quatro horas, o cirurgio, primeiro, recorta uma faixa de couro cabeludo rente  nuca, com dimenses de 1 centmetro de largura por 6 centmetros de extenso e 4 milmetros de profundidade. Dessa fatia so retiradas de 350 a 700 unidades foliculares  estruturas compostas de raiz do cabelo, glndula sebcea e uma espcie de msculo, que impulsiona o crescimento cio fio. Num desafio  pacincia e  habilidade do mdico, cada uma dessas unidades  reaplicada dentro de pequenos orifcios, feitos com agulhas, na regio das sobrancelhas. A operao custa entre 3000 e 15.000 reais e o resultado final pode ser confirmado apenas um ano depois. Os fios tm um ciclo de crescimento. Os transplantados caem, e s podemos avaliar se as unidades foliculares permaneceram ativas se fios novos crescerem em seu lugar, diz Francisco Le Voci, dermatologista do Hospital Albert Einstein. Os fios retirados do couro cabeludo crescem mais rapidamente que os das sobrancelhas. Isso acontece porque as clulas dessa rea sofrem mais divises e tm mais irrigao sangunea. Por isso, os fios transplantados precisam ser aparados a cada quinze dias, explica o tricologista Valcinir Bedin, presidente da Sociedade Brasileira do Cabelo.
     Se a ideia de sobrancelhas cabeludas ainda parece algo assustadora, outro tipo de interveno, da famlia da maquiagem definitiva, tambm continua a ter avaliaes divergentes. Suas adeptas acreditam que a tatuagem  diga dermopigmentao, por favor  evoluiu. Os pigmentos usados hoje so  base de dixido de ferro, uma substncia que em um ano e meio  absorvida pelo organismo. Antes, usvamos tintas permanentes que com o tempo adquiriam um aspecto azulado, argumenta Tatiana Donadio, expoente de uma nova categoria profissional chamada designer de sobrancelhas, do salo Studio W, em Alphaville. Com uma espcie de caneta com agulha na ponta, o dermgrafo, a esteticista aplica na pele uma mistura de diversos tons de tinta, fazendo pequenos riscos e arcos para emular melhor o aspecto natural. A tcnica  uma alternativa para quem tem poucos fios; mas ela no d o volume de uma sobrancelha de verdade, avalia Ivone Santana, dermopigmentadora do salo MG Hair. As sobrancelhas mais pedidas pelas clientes so as de Angelina Jolie e as de Kate Middleton. Desaconselho o padro Angelina. Ela tem arcos altssimos, que envelhecem a mulher, diz Ivone. Kate, a mulher do prncipe William da Inglaterra, inspirou toda uma escola de sobrancelhas fartas, de contornos bem definidos e reforadas com sombra marrom.
     Arrancar toda a sobrancelha para redesenh-la ligeiramente acima  uma tcnica antiga  no Japo medieval chamava-se hikimayu. A primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama,  uma adepta. Especialistas enxergam tambm sinais de dermopigmentao. Esse desenho  to perfeito que no existe na realidade, diz Tatiana Donadio. A foto de formatura de Michelle, de 1985, indica que ela, como a maioria das mulheres, no quer nem saber do mandato da natureza. 


11. ESPORTE  O PAS DA LUTA GRECO-ROMANA
Se o Brasil quiser mesmo ampliar o nmero de medalhas na Olimpada do Rio, em 2016, ter de apostar em modalidades ainda incipientes, defendidas por heroicos abnegados.
SIMONE COSTA

     O desafio brasileiro para a Olimpada de 2016, no Rio,  imenso: como conquistar medalhas alm do tmido padro habitual? Tradicionalmente, o pas da cidade-sede amplia a quantidade de pdios em comparao a competies anteriores. A Gr-Bretanha conseguiu crescimento de 38% em relao a 2008  saindo de 47 medalhas, h quatro anos, para 65, em Londres, agora em 2012. A China, em 2008, conseguiu um salto de 59% diante de Atenas, 2004  foram 100 medalhas contra 63. Para 2016, os cartolas do Comit Olmpico Brasileiro (COB) estimam de 26 a trinta pdios (dezessete em Londres), num salto de 53% a 76%. Para ser potncia olmpica, um pas no pode ser especialista em uma nica modalidade, disse a VEJA Marcus Vinicius Freire, diretor executivo de esportes do COB. Por isso montamos um plano para privilegiar diversas modalidades. Historicamente, as naes que ficam entre as dez primeiras colocadas ganham medalhas em treze modalidades  o COB investir em dezenove para tentar alcanar sucesso nas tais treze. H as classificadas como vitais, caso do vlei de praia e do jud. As potenciais, como boxe e ginstica artstica. As contribuintes, a exemplo do pentatlo e do tiro esportivo. E aquelas alcunhadas de legado, alimentadas hoje para s dar frutos em 2020 e 2024, e das quais fazem parte o hquei sobre grama e a luta greco-romana.
     Um estudo indito elaborado pela consultoria Condere, de So Paulo, revela que apostar na luta greco-romana  por estranho que soe pr dinheiro em um esporte ainda na infncia no Brasil, com apenas 300 praticantes e seis treinadores com formao completa, que sobrevive do esforo de abnegados em instalaes apenas razoveis  talvez seja boa ideia para j, e soluo para incrementar a seca de medalhas. Ao cruzarem o nmero de atletas participantes de cada modalidade na Olimpada de Londres com o ouro, prata e bronze disputados, os analistas da Condere conseguiram identificar os esportes de competitividade baixa e os de competitividade alta e muito alta. Sonhar com conquistas no atletismo, ciclismo e natao, por exemplo,  sinnimo de enfrentar gente grande numa briga dura (veja o quadro na pg. ao lado). Ginstica olmpica, jud e luta greco-romana, na outra ponta, so os esportes que permitem buscar vitrias com mais facilidade  e o caso da luta greco-romana  extraordinrio porque o Brasil nunca conseguiu medalha nessa modalidade.
     A anlise da Condere foi mais longe, ao acrescentar aos clculos o potencial de medalha de cada esporte (dado pela quantidade de prmios distribudos numa Olimpada, donde se conclui ser melhor mirar em provas individuais, mais generosas, que nas coletivas); a fora competitiva histrica do Brasil; e o nmero de concorrentes. O resultado: os esportes tradicionalmente vencedores, como jud e vlei de praia, so tidos como prioritrios, em raciocnio que combina com o do COB. A luta greco-romana  olhe ela a de novo , o tiro e o polo aqutico, entre outros, tm mdia prioridade, podem trazer alegria. Hquei sobre grama? Remo? Melhor passar ao largo, ou ir modestamente (veja o quadro abaixo).  fundamental fazer escolhas, diz Paulo Cury, scio da Condere, um dos idealizadores do trabalho.

AS CHANCES DE SUBIR AO PDIO
Entre os esportes que nunca ganharam medalhas para o Brasil, mira-se a luta greco-romana, segundo a consultoria Condere, porque a competitividade  baixa.
Para definir o grau de competitividade de uma modalidade, dividiu-se o nmero de atletas participantes em 2012 pelas medalhas disputadas.
COMPETITIVIDADE
BAIXA  Ginstica artstica; Jud; Luta greco-romana
MEDIANA  Canoagem; esgrima; Tiro esportivo
ALTA  Atletismo; Ciclismo; Natao
MUITO ALTA  Remo

O QUE RUIU COM O MURO
Aumentar o nmero de medalhas de uma Olimpada para outra  meta unnime, embora o clube de vencedores seja reduzido: de 1992 a 2012, em seis edies dos Jogos, os trinta primeiros pases ficaram com 80% dos pdios. Preocupante  quando se d a queda inexorvel. Nos ltimos vinte anos, as naes que mais perderam medalhas foram Alemanha, Bulgria e Cuba (veja no grfico abaixo)  e todas pelos mesmos motivos. Com o fim da Unio Sovitica, em 1991, o dinheiro secou para os pases que orbitavam ao redor da lua comunista. Cuba, ainda que tenha sido o pas da Amrica Latina com mais ouros na Olimpada de Londres, teve desempenho decepcionante, representado pelo mau resultado de Dayron Robles ao fracassar nos 110 metros com barreiras, contundido. A Alemanha minguou quando o Muro de Berlim caiu, e com ele a farsa da banda oriental, que dopava seus atletas, em especial as campes de natao como Komelia Ender, quatro ouros em 1976. Sem a arqui-inimiga vizinha a provoc-la, numa vertente esportiva da Guerra Fria, a Alemanha Ocidental tambm freou.

AS MAIORES QUEDAS
Alemanha, Cuba e Bulgria foram os pases que perderam mais lugares no pdio, em nmeros absolutos, nos ltimos vinte anos.
ALEMANHA
1992  82
2012  44

CUBA
1992  31
2012  14

BULGRIA
1992  16
2012  2

HUNGRIA
1992  30
2012  17

POLNIA
1992  19
2012  10

ROMNIA
1992  18
2012  9

ONDE PR O DINHEIRO
Ao estimar o potencial de medalhas por modalidade, a fora competitiva histrica de cada pas e o nmero de concorrentes por medalha, o estudo estabeleceu um ranking de prioridades para o Brasil em 2016.

PRIORIDADE
ALTA  Atletismo; Natao; Jud; Vlei; Ginstica artstica; Futebol; Boxe; Vlei de praia.
Recomendao de investimento: de 45% a 50% da verba total do governo.

MDIA  Luta greco-romana; Tiro esportivo; Polo aqutico; Iatismo; Tae kwon do; Ciclismo; Hipismo; Basquete
Recomendao de investimento: de 25% a 30% da verba total do governo

BAIXA  Handebol; Hquei sobre grama; Canoagem; Saltos ornamentais; Esgrima; Levantamento de peso; Remo; Badminton; Tiro com arco; Pentatlo moderno; Tnis de mesa; Tnis; Triatlo; Nado sincronizado.
Recomendao de investimento: de 20% a 25% da verba total do governo 


12. ESPECIAL  O MUNDO  NOSSO
Os jovens bolsistas que ilustram estas pginas esto aprendendo cincia com os melhores mestres do planeta. Se conseguirem aplicar a lio na volta, podero fazer o Brasil enfim entrar no mapa global da inovao.
MONICA WEINBERG, DE SEUL E MUNIQUE. E NATLIA BUTTI, DE BOSTON

     Nenhuma expresso  to pronunciada em coreano como pali pali. Em bom portugus: apresse-se. Vale para o formigueiro humano que se acotovela para arranjar lugar no metr de Seul ou para expressar a urgncia em atingir uma meta. Foi em ritmo pali pali que uma rea abandonada de Pohang, cidade industrial a 270 quilmetros da capital, se converteu em menos de trs dcadas em uma universidade dedicada  inovao que j figura entre as cinquenta melhores do mundo  a Postech. At hoje, nenhum prmio Nobel saiu de l, mas duas bases de concreto  espera do busto de um futuro laureado no deixam dvidas quanto  ambio.  nesse ambiente de expectativas nada modestas que se destaca um grupo de estudantes vindos de trs regies do Brasil, nicos latino-americanos no cmpus. Eles j viveram diversos momentos de espanto. Um deles se deu quando entraram em um laboratrio de robtica to futurista que parecia um cenrio de filme. A obstinao de colegas que disputam mesas na biblioteca at alta madrugada foi outra cena inusitada. Num lugar como este, tudo conspira a favor da cincia, resume o estudante de engenharia eletrnica Andr Luiz Martins, 22 anos, levando  boca uma colher de kimshe, prato coreano feito de repolho embebido em pimenta  outro choque.
     VEJA esteve com a entusiasmada turma que ilustra as pginas desta reportagem em sua temporada de busca do saber onde ele  mais cultivado. Esses brasileiros so integrantes de uma leva de 100.000 estudantes que, confirmadas as previses, ter embarcado at 2015 para temporadas nas melhores universidades de quarenta pases. Mais de 14.000 j partiram e outros 8000 se preparam para viajar em janeiro. Eles so financiados pelo Cincia sem Fronteiras, programa federal que, por sua dimenso e cifras, no tem precedentes na histria brasileira de distribuio de bolsas no exterior. Para se ter uma medida, o oramento de 3,4 bilhes de reais (75% vindos do caixa da Unio, 25% do setor privado) far quase quadruplicar o nmero de bolsas para alunos da graduao ao ps-doutorado em dezoito reas das cincias exatas e biolgicas. O objetivo  expor gente talentosa ao DNA inovador de pases mais desenvolvidos, um caminho j percorrido dcadas atrs pela China e pela prpria Coreia, com sucesso. Para aproveitar esses talentos na volta, a academia brasileira precisar se despir de velhas ideologias e do atoleiro burocrtico que ainda a imobilizam. Se a chance for bem aproveitada, pode ser um passo decisivo para o avano cientfico e tecnolgico do pas, avalia o economista Claudio de Moura Castro, articulista de VEJA.
     Vivendo em dormitrios universitrios que abrigam uma mirade de nacionalidades e costumes, os brasileiros destoam pelos decibis  They talk, talk, talk, diz um coreano , mas vo se adaptando a ambientes mais silenciosos e concentrados para o estudo e a pesquisa. Quase no se ouvem vozes, mas apenas um suave rudo vindo do manuseio de equipamentos no Instituto Max Planck, em Munique, uma das instituies que mais produziram prmios Nobel no planeta. A capixaba Rebecca Cruz, 21 anos, ainda se habitua  ideia de ter sido acolhida ali, no grupo liderado por Wolfgang Baumeister, um dos mais estelares nomes da biologia molecular moderna. Rebecca investiga o papel de uma protena essencial para o processo de diviso celular, utilizando uma avanada tcnica de congelamento. Decifrar os segredos dessa protena  uma etapa crucial de uma promissora linha de combate ao cncer. Mal cheguei e me fizeram mexer numa mquina de milhes de euros. Venci o medo, conta a estudante, ao lado do namorado, Paulo Victor, 22 anos, que tambm ganhou bolsa e cujo semblante se ilumina ao falar da pesquisa que desenvolve com sapos na vizinha Ludwig-Maximilians, uma das maiores universidades alems. O leque de assuntos que absorvem os brasileiros  variado e ambicioso. Ele vai da cura do diabetes  produo de uma prtese que recria os movimentos da mo: do desenvolvimento de biocombustveis ao avano na tecnologia de GPS e celular.
     A imerso em ambientes que respiram cincia de alto nvel certamente incutir nesses jovens crebros novas e mais elevadas expectativas acerca do futuro  o que  essencial para pavimentar o caminho do desenvolvimento. S que a despressurizao na volta para o Brasil tem tudo para ser dolorida, fazendo pairar um ponto de interrogao sobre como essas mentes inovadoras podero fazer diferena em ambientes em que falta at o bsico  material para a pesquisa. Tais jovens dificilmente escaparo dos labirintos burocrticos que transformam a importao de um simples reagente numa epopeia de meses. No  difcil imaginar tambm que os estudantes da graduao, que abriram seu leque de interesses e experincias no exterior, sintam um baque no retomo ao antiquado modelo brasileiro de universidade,  base de muita aula, pouco projeto e uma grade de matrias inflexvel e h dcadas congelada no tempo. (Enquanto na Universidade Tecnolgica de Munique os engenheiros ambientais podem escolher entre trinta disciplinas ligadas s formas de energia renovvel, no Brasil as universidades no oferecem mais do que uma ou duas.) Esses jovens tero de encarar ainda a velha desconfiana que persiste em certos grupos acadmicos em relao ao mercado, fruto de um rano ideolgico segundo o qual a universidade publica deve se manter longe dos tentculos privados.
     As instituies estrangeiras que esto absorvendo os brasileiros rompem com essa barreira de forma radical, ajudando a talhar talentos para a inovao. Em alguns casos, fica at difcil divisar onde termina o interesse da universidade e comea o da empresa. Os alunos se beneficiam. Na Alemanha, Ph.Ds. da fbrica de carros BMW lanam aos estudantes o desafio de aprimorar um software para o sistema de um carro que est na linha de produo, ensinando princpios essenciais da engenharia. Numa disciplina de projetos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, um grupo de brasileiros est envolvido com o desenvolvimento de produtos reais, encomendados por multinacionais que do verbas  Universidade. Acabaram de criar uma mquina que eleva a produtividade na colheita de legumes. Em outra aula, aprendem os caminhos que levam  criao de um produto ou tcnica inovadores o bastante para receber uma patente  obsesso naqueles vibrantes corredores. Uma parte dos bolsistas ainda tem a oportunidade de ampliar a viso para alm dos muros acadmicos arranjando estgio em empresas privadas com a ajuda do Cincia sem Fronteiras, talvez um dos aspectos mais interessantes do programa (veja o quadro na pg. 144).
     A histria  rica em exemplos de como sociedades menos desenvolvidas conseguiram dar um salto ao absorver conhecimento de povos mais evoludos. A primeira iniciativa organizada nesse sentido ocorreu na Roma antiga, onde os figures da elite passaram a importar como escravos as melhores cabeas da civilizao grega, ento em declnio, para ensinar histria, filosofia, arquitetura e direito a seus filhos. Mais tarde, quem podia comeou a viajar em busca da excelncia. Na Idade Mdia, os mais abastados vinham de toda parte para estudar em universidades como Sorbonne, Oxford e Bolonha, a mais antiga de todas. J no sculo XI, ela recebia estudantes das mais diversas origens  gregos, hngaros, rabes, africanos. As grandes migraes intercontinentais de crebros so um fenmeno da segunda metade do sculo XIX, quando a elite das colnias passou a abrigar-se nas instituies de ensino das metrpoles  como aconteceu com os brasileiros em Coimbra. Foi da combinao de brasileiros educados no exterior com estrangeiros vivendo no Brasil que surgiriam dcadas depois as bases para a cincia nacional.
     A maioria dos jovens brasileiros da leva atual tem currculo envernizado por notas altas e, no raro, experincia em pesquisa, passagens pelo exterior e bom domnio pelo menos do ingls (idioma em que tm aulas at em alguns pases de lngua no inglesa, como a Coreia). Eles esto assimilando uma cartilha que preza planejamento, metas, competio e risco intelectual. Na volta, tm tudo para cobrar e desencadear mudanas  comeando pela prpria universidade em que estudam, enfatiza o doutor em engenharia eltrica Daniel Fink, coordenador do Cincia sem Fronteiras em Seul. Talvez, mas a experincia ensina que esses que extrapolam a mdia abominam mais do que tudo a sensao de paralisia. Se encontrarem um ambiente impermevel a mudanas e desprovido de estmulos, podem tomar o caminho de volta ao exterior ou nem mesmo querer retornar.
     O caso da Coreia refora isso. Na dcada de 60, 97% dos cientistas coreanos abrigados em universidades americanas no cogitavam regressar a seu pas. A situao s comeou a se reverter com um investimento macio em centros de pesquisa que ofereciam aos que haviam debandado altos salrios, laboratrios de nvel mundial e  o mais importante  uma carreira acadmica definida por critrios meritocrticos. Para se ter uma noo do prestgio desses que voltavam, quem buscava acesso a quadros do alto escalo do governo ia at eles pedir que abrissem as portas do poder. Em duas dcadas, 70% dos que estavam fora regressaram, constituindo uma fora de trabalho decisiva para a economia coreana deslanchar. Voltamos porque sabamos que tnhamos condies de crescer e fazer diferena na cincia do pas, conta o doutor em engenharia eltrica Yongmin Kim, presidente da Postech, 59 anos, 35 dos quais vividos em universidades nos Estados Unidos (veja a entrevista na pg. 146).
     A ideia do Cincia sem Fronteiras surgiu em maro do ano passado, em Braslia, durante um encontro da presidente Dilma Rousseff com seu colega americano, Barack Obama. A conversa entre os dois governantes flua bem at que Obama cutucou: Por que h 120.000 chineses estudando em universidades americanas e s 7000 brasileiros?. Quem assistiu  cena conta que Dilma ficou desconcertada e saiu decidida a ter resposta melhor a dar em uma prxima vez. Em no mais do que dez meses  tempo recorde para empreitada de tal envergadura  o programa foi criado do zero, universidades, CNPq e Capes selecionaram os alunos, e a primeira leva partiu. A ordem era botar a engrenagem andando e ir fazendo os reparos ao longo do processo, conta um tcnico envolvido no programa.
     No  difcil entender por que o Cincia sem Fronteiras estreou com tantos escorreges. Uma turma da graduao acabou voltando depois de apenas seis meses (hoje o tempo mnimo  de um ano), bolsas atrasaram e parcerias com universidades de primeira linha, como Harvard e Stanford, no haviam sido sequer seladas. No primeiro edital, eram os prprios alunos que, com a bolsa aprovada, tinham de acionar a instituio em que desejavam estudar. Tantos foram os currculos enviados ao instituto de Tecnologia da Califrnia (Caltech), meca para as engenharias, que a faculdade, desavisada sobre o programa, fez chegar um aviso aos brasileiros: que cessassem os pedidos, j que no havia como atend-los. Agora, um rgo especializado em intercmbios acadmicos de cada pas cuida da distribuio dos alunos pelas universidades, com base numa lista de opes assinaladas pelo estudante. As vezes, acontece de o aluno ir parar num curso que no est no topo da excelncia, ainda que a instituio seja de bom nvel.  preciso ajustar o sistema e fazer o pente-fino em prol da qualidade.
     Os nmeros do Cincia sem Fronteiras poderiam at ser mais superlativos, mas faltam candidatos para preencher as vagas. Na graduao, a procura  alta, mas muitos so barrados na seleo por no apresentar o nvel bsico de ingls. Mesmo com a meta de 2012 cumprida, havia 40% a mais de bolsas a distribuir. O dado da ps-graduao  ainda mais espantoso: 64% das bolsas ofertadas esto  espera de aspirantes. Muita gente na universidade brasileira vive numa zona de conforto, sem muito risco nem grandes ambies, por isso no se candidata, diz o fsico Glaucius Oliveira, presidente do CNPq. Espera-se que a turma talentosa e cheia de planos que j embarcou rompa o marasmo e ponha o Brasil na rota da inovao.  preciso acelerar o passo. Ou, como se diz na Coreia, pali pali.

O FUNIL DOS MELHORES
As bolsas de estudos para graduao do Cincia sem Fronteiras contemplam dezoito reas das cincias exatas e biolgicas. A seguir, o passo a passo da seleo, que dura cerca de quatro meses.
1- O candidato que completou entre 20% e 90% do currculo previsto se inscreve no portal do programa.
2- A universidade na qual ele estuda  informada da inscrio e a aprova ou no, avaliando a aptido do candidato para o curso pretendido e suas notas.
3- A Capes ou o CNPq fazem nova peneira com base no boletim do aluno, na proficincia na lngua estrangeira (no mnimo, intermediria) e em prmios acadmicos.
4- A documentao dos aprovados vai para um rgo pblico de intercmbio estudantil no outro pas, que encaminha cada aluno  universidade mais adequada e o matricula.

ARROMBANDO A PORTA
Em vigor h mais de meio sculo, a oferta de bolsas de estudos no exterior financiadas pelo governo alcanou um patamar indito com o programa Cincia sem Fronteiras.
Bolsas concedidas por ano, da graduao ao ps-doutorado
1960  224
1970  224
1980  1987
1990  3910
2000  3014
2010  5388
2012  20.603

ENTENDEMOS OS NOSSOS LIMITES
No comando da Postech, centro de excelncia voltado para a inovao que figura entre os melhores do mundo, Yongmin Kim, 59 anos, diz a VEJA que a Coreia no seria a mesma se sua elite no tivesse aprendido com os americanos.

Quase todos os professores em sua universidade estudaram em alguma instituio americana ou europeia. Como isso ajuda? 
Antes de tudo, isso nos d a verdadeira dimenso de onde estamos e de quanto ainda precisamos percorrer para alcanar os melhores do mundo. Alguns nos apelidam de MIT coreano, mas eu e meus colegas sabemos que ainda falta cho. Com a viso mais empreendedora que trouxemos, tambm ajudamos a incutir dentro e fora da academia coreana o DNA do risco, caldo de cultura de onde emergem as grandes inovaes.  uma mudana de mentalidade que leva tempo.

Quanto? 
Pelo menos uns cinquenta anos. Olhe essa universidade que eu dirijo. Vinte e cinco anos atrs, no havia aqui mais do que um terreno baldio no meio da cidade. Hoje, aparecemos entre os cinquenta melhores do mundo. Um avano considervel, sem dvida, mas ainda estamos longe do topo. Calculo mais uns 25 anos para sedimentar de vez a ideia de que para criar algo realmente extraordinrio  preciso estar disposto a correr riscos de forma radical e errar. A, sim, poderemos ombrear com o MIT.

O senhor fala como se a Coreia j no fosse um pas bastante inovador...
Verdade, mas nunca inventamos nada to revolucionrio quanto o iPhone. Para isso, repito,  preciso cultivara criatividade como uma religio.  isso que os crebros que regressaram  Coreia trazem de forma acentuada.

Por que o senhor decidiu aderir ao programa Cincia sem Fronteiras? 
Os grandes inventos tm surgido de ambientes heterogneos, em que h choque de ideias e de maneiras de pensar. Internacionalizar  a palavra de ordem aqui.

Que impresses o senhor tem da academia brasileira? 
Visitei duas universidades federais na nica vez em que estive no Brasil, em 2006. Chamou-me a ateno como as questes administrativas consomem tanto tempo de boas cabeas que poderiam e deveriam estar dedicadas  pesquisa e  inovao.

A DISNEY DA ROBTICA - A Coreia no soava to distante assim para os estudantes Cristiano Cunha ( esq.), 22 anos, da engenharia mecatrnica da Federal de Uberlndia, e Matheus Lima, 21, da engenharia mecnica da Unicamp. Eles j conheciam os livros de autores coreanos, preeminentes pesquisadores com os quais agora podem ter aulas no Kaist  instituio conhecida pela alta produo de patentes. No cmpus, Cristiano e Matheus convivem com gente do mundo todo, frequentam um restaurante que serve um hbrido de comida italiana com culinria local e seguem uma intensa rotina de estudos. Eles esto avanadssimos na aplicao da robtica no dia a dia, entusiasma-se Matheus. No laboratrio onde os dois posam para a foto, h gente quase 24 horas por dia trabalhando para dar preciso aos movimentos dos robs, que esto por todo lado.

ELES VO A CAMPO - O dia no meio do mato comea s 6 da manh com um trabalho artesanal de coleta, lavagem, secagem e pesagem de espcies. Conhecer a fundo o comportamento dessas plantas pode ser valioso para preserv-las , diz Bianca Ott ( frente), 27 anos, aluna de botnica da Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ela faz uma parte do doutorado no cmpus que a Universidade Tecnolgica de Munique mantm na vizinha Freising. A instituio est na ponta da pesquisa na recuperao de campos calcrios  rea de investigao que inexiste no Brasil, apesar de cerca de 10% do territrio do pas ser constitudo desse ecossistema. A estudante de agronomia Gabriele Pilger, 21, tambm da UFRGS, e Guilherme Tecker, 22, da engenharia ambiental da Federal Fluminense, participam do projeto, que tem um vis prtico. O esforo  para no deixar os campos virarem florestas e se tornarem imprprios para a pecuria, explica Gabriele.

A CIDADE  O LABORATRIO - Muitas das aulas de arquitetura de Caroline Sampaio de Oliveira, 22 anos, acontecem nas ruas de Munique, onde ela observa os prdios de formas leves que guardaram o ar moderno mesmo depois de dcadas. Ali, faz registros sobre como as pessoas interagem com o mobilirio urbano e aprende fotografia. No laboratrio de design da Universidade Tecnolgica de Munique, a estudante encantou-se com uma impressora 3D que faz dos estiletes que usa para produzir os prottipos de seus projetos, na Universidade Federal do Paran, coisa da idade da pedra. Entusiasmada com o idioma alemo, no qual avana a passos largos, ela comea a absorver at os jarges de sua rea. Quero manter uma conexo com a Alemanha, diz. 

QUANDO UNIVERSIDADE E EMPRESA CAMINHAM JUNTAS
Na cidade de Suwon, prxima a Seul, fica Sung Kyun Kwan, a mais antiga universidade coreana, fundada em 1398. H pouco mais de uma dcada ela se converteu em referncia na rea de semicondutores e celulares empurrada pelas verbas da Samsung, de onde tambm saem Ph.Ds. que ensinam no cmpus. Vindos da gacha Unisinos, em So Leopoldo, os alunos de engenharia Ismael Cardoso, 19 anos, Thiago Teixeira, 28, e Cassiano Campes, 20 (da esq. para a dir.), esto aproveitando essa proximidade com a indstria para buscar respostas a demandas do momento. Num lugar assim, inovar  decorrncia natural do estudou, diz Thiago, atualmente consumido pelo desenvolvimento de uma tecnologia que amplia a cobertura do GPS.

O CHEFE DELE  O CARA
No meio de um feriado, o fsico pernambucano Bertulio Bernardo, 27 anos, trabalha apenas em companhia de um computador num ambiente em que no se ouvem rudos. No  o nico em Harvard, que fervilha de estudantes adiantando tarefas. Quando enviou o currculo a um renomado Ph.D. que conhecia de nome, ele sabia que seria quase impossvel conseguir uma vaga em seu grupo de pesquisa. No acreditei. O cara virou meu chefe, festeja Bertulio, que passar um ano de seu doutorado ali, estudando partculas atmicas que podem elevar a outro patamar a memria e a rapidez de computadores.  uma frente nova de investigao at mesmo nos Estados Unidos  rea na qual o pernambucano pretende ser pioneiro no Brasil.

TREMI, MAS FUI EM FRENTE - A estudante Rebecca Cruz, 21 anos, mal pisou no Instituto Max Planck, em Munique, e j foi apresentada a um equipamento de milhes de euros  com uma recomendao: V em frente. Ela tremeu, mas foi. O empenho de seu orientador na Federal de Vitria acabou sendo decisivo para que ela conseguisse vaga ali, entre alguns dos mais prestigiados pesquisadores na rea da biologia molecular moderna. A tarefa de Rebecca, que cursa o 3 perodo da faculdade,  observar uma protena envolvida na diviso celular por meio de uma avanada tcnica de congelamento. Pode ser crucial na preveno e em tratamentos de cncer. Em breve, seu orientador ir ao Max Planck, numa tentativa de firmar laos com o grupo no qual Rebecca est sendo batizada no mundo da cincia.

LIO NMERO 1: FAZER UMA PATENTE - Em menos de um ano, o catarinense Daniel de Paula Lopes, 24 anos, j fez um rob com destreza para vencer obstculos (campeo em um concurso da Nasa), criou o prottipo de um carro preparado para cruzar terrenos pantanosos e tomou aulas sobre como criar uma patente, obsesso entre alunos e professores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Daniel pediu uma extenso de sua bolsa para passar mais tempo no vibrante laboratrio de design robtico da universidade, referncia na rea. Aluno do Instituto Tecnolgico de Aeronutica (ITA), ele diz que a experincia mudou sua forma de ver a cincia: Estou numa excelente universidade no Brasil, mas ela ainda  muito mais terica e menos inovadora do que o MIT que estimula o tempo todo o empreendedorismo.

A BILOGA FOI PARAR NA ESCOLA DE NEGCIOS - Ainda tropeando em sua iniciao no hquei no gelo, a cearense Dayanne Castro, 21 anos, quis variar um pouco de rea e decidiu matricular-se em cursos da Warthon, prestigiada escola de negcios da Universidade da Pensilvnia, onde est h seis meses. Estudante de biologia da Unicamp, ela conta: Entendi que d para ter uma viso mais empreendedora da minha rea, que  aplicvel a uma infinidade de setores da indstria. Nas frias de vero, Dayanne arranjou estgio na Amgen, gigante do setor farmacutico, onde aprendeu a usar um programa de computador que analisa anticorpos para a produo de medicamentos. Gostou tanto que planeja enveredar por esse campo na volta ao Brasil.

NA DISPUTA PELA DIANTEIRA - A paulista Amanda Bernardi, 22 anos, passa dias e noites submetendo uma espcie de bactria a testes de resistncia  um trabalho que exige preciso no manuseio e pacincia.  etapa fundamental de uma pesquisa que busca fazer dessa bactria a base para a produo de um tipo de lcool. Aluna de biotecnologia da Universidade Federal de Alfenas, Amanda est hoje entre alguns dos mais renomados cientistas da rea em um laboratrio do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. Seu grupo disputa a dianteira com outro, americano, o que deixa o ambiente em ritmo acelerado. Somos movidos por metas e cobrana por resultados.  estimulante, diz ela, que quer seguir carreira de pesquisadora, se possvel, conectada ao MIT.

SETE SEGUNDAS-FEIRAS POR SEMANA - Para os estudantes acima, as frias foram ao estilo coreano: Sete segundas-feiras por semana, resume o estudante de engenharia mecnica Bruno Closs, 22 anos, ao lado de Jessica Okagima, 19, Ester Baungratz, 21, e Ane Hoffmann, 22. O grupo fez estgio na Hyundai, uma das mais de 200 empresas que oferecem colocaes aos brasileiros do Cincia sem Fronteiras no exterior. Para Jessica, estudante de engenharia civil de Mato Grosso, foi a chance de aprender em meio a uma obra tudo sobre um sistema de trelias que ajuda a poupar tempo e dinheiro na construo de pontes. A lio aconteceu no instante em que as estruturas eram colocadas de p, conta. As razes que fazem a Hyundai aderir ao programa no diferem muito das de outras empresas.  uma oportunidade de talhar talentos para seus prprios quadros num momento em que se expandem pelo mercado brasileiro. Esses jovens nos ensinam sobre o mercado brasileiro e assimilam o DNA corporativo coreano, explica o vice-presidente Kwangguk Lee, da Hyundai Motor, que vai contribuir para o programa com 1,5 milho de dlares e sessenta vagas de estgio por semestre at 2015. Esses jovens j passaram por uma dura peneira de qualidade, por isso nos interessam, refora a americana Donna Hrinak, presidente no Brasil da Boeing, que ofereceu estgio a catorze estudantes na sede de Seattle. Eles aprenderam a reconstituir a asa de um avio F-86 com a ajuda de um software e at presenciaram reunies entre os altos executivos e integrantes do governo em Washington. Um dos objetivos do Cincia sem Fronteiras  justamente proporcionar uma experincia no mercado de trabalho, mas esse ponto ainda demanda ajustes. Na maioria dos casos, falta uma coordenao entre quem oferece e quem busca oportunidades. Nossa meta  produzir um banco de dados mundial para conectar as duas partes, diz Denise Neddermeyer, diretora de relaes internacionais da Capes. A promessa  para 2013.


